Sozinhos na multidão

Quem de nós nunca encolheu a barriga, antes do clique de uma câmera fotográfica? A verdade é que todos nós passamos o tempo todo tentando exibir pra todo mundo uma imagem que não corresponde à realidade. Esforçamo-nos ao máximo na tentativa de parecermos mais magros, mais jovens, mais ricos, mais cultos, mais bonitos e mais inteligentes do que somos de fato. Há muito, essa prática se tornou a nossa maior obsessão. Daquelas que todo mundo tem, todo mundo sabe, mas bem pouca gente tem coragem de tocar no assunto.

O pior é que em nossa vida cristã a história não é muito diferente. Quando nos vemos cercados por nossos irmãos na fé, acionamos esse mesmo mecanismo de defesa, na tentativa, às vezes inconsciente, de parecermos mais consagrados, mais fiéis, mais crentes, mais mansos, mais alegres e muito mais devotos do que conseguimos ser na vida real. Quando ninguém além de Deus está de olho em nós, abandonamos a oração, trocamos os pés pelas mãos, botamos o coração em coisas sem nenhum valor eterno, nos irritamos por qualquer bobagem, falamos sem pensar, somos vencidos pela preguiça, negociamos a verdade e reclamamos à beça da providência divina. Até as nossas maiores convicções entram em liquidação, quando estamos longe do olhar atento de outros cristãos.

No fundo, no fundo, nos esquecemos de que "o Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração" (1Samuel 16.7). Podemos até mentir para Deus, mas não podemos enganá-lo. Na verdade, não conseguimos enganar nem os nossos pares. Eles apenas fingem que acreditam naquilo que fingimos ser realidade. Nesse oceano de fingimento, nenhum de nós se deixa encontrar de fato, nem por Deus nem pelos outros. Ficamos ali, tão perto e tão longe uns dos outros, ao mesmo tempo. Tão próximos e tão distantes da graça, o tempo todo. E, enquanto ninguém se move rumo à verdadeira intimidade com Deus e com o próximo, vamos ficando assim, cada vez mais iguais, cada vez mais formais, cada vez mais artificiais. Sozinhos, no meio de uma multidão de infiéis. Seguindo em nossa pobreza espiritual, assentados sobre o infinito e intocado tesouro da graça.



Escrito por Léo Barbosa às 16h24
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Religiosismo à brasileira

Da sacada do Mosteiro de São Bento, papa Bento 16 abençoa fiéis

Eles fazem tudo o que o Papa e a Igreja proíbem, mas ainda assim se dizem católicos. O país que inventou o "catolicismo à brasileira", recebe a visita da autoridade máxima da Igreja Católica, com total reverência pela sua figura, mas sem nenhum respeito pelos seus discursos. Segundo o sociólogo da USP Reginaldo Prandi, apesar dos esforços de Bento 16, os católicos do país devem continuar não acatando várias determinações de Roma. “Eles tomam a pílula anticoncepcional, o que é proibido; muitos praticam o aborto, o que é proibido; se casam mais de uma vez; usam camisinha e puxam a orelha de quem não usa – e continuam católicos. A mensagem oficial religiosa entra por um ouvido e sai pelo outro”, acredita Prandi.

Esses são os chamados "católicos nominais". Eles foram batizados, ainda bebês; vivem uma relação de amor e ódio com o Papa; chamam os evangélicos de seita; assistem as coreografias do Padre Marcelo, pela TV; fazem o sinal da cruz, ao avistar uma igreja; e, sempre que perguntados, se dizem católicos. Mas, além de não irem à missa, muitos deles freqüentam centros espíritas, acreditam em reencarnação (filosofia que nega os principais dogmas da Igreja Católica), misturam os santos tradicionais da Igreja com entidades do baixo espiritismo, e assistem aos inúmeros escândalos de pedofilia envolvendo padres e cardeais, como se não fosse com eles. Enfim, há muito tempo, boa parte dos fiéis brasileiros relegou o catolicismo ao universo religioso, mas desistiu de colocá-lo em prática em sua vida real.

Infelizmente, a decadência do "religiosismo à brasileira" não se restringe apenas à Igreja Católica. É crescente também o número de brasileiros que se dizem evangélicos, mas que não estão filiados a nenhuma igreja local, não freqüentam cultos com regularidade, são biblicamente analfabetos, fazem tudo o que a fé evangélica proíbe, não têm compromisso algum com o reino de Deus, e não contribuem financeiramente com nenhum ministério ou ação social promovida pelas milhares de denominações evangélicas. A este fenômeno de auto-esvaziamento religioso, em que aqueles que se dizem fiéis são incapazes de sustentar os valores da própria fé que professam, também poderíamos chamar de "evangelicismo à brasileira". Uma religiosidade puramente nominal, estéril e inútil, que não faz diferença alguma na vida de quem a pratica e, muito menos, daqueles que estão à sua volta. Uma religiosidade da qual muitos de nós precisam se arrepender, antes de se converter.



Escrito por Léo Barbosa às 08h21
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