VIII - O sofrimento destrói o orgulho

Pior do que sofrer, é atravessar o sofrimento sem extrair dele alguma experiência. E, de todas as experiências que depreendemos do sofrimento, nenhuma tem efeito mais devastador sobre o nosso orgulho do que a experiência da dependência. Desde que a serpente do Paraíso convenceu os nossos primeiros pais a tomarem o fruto proibido, para dele obterem alguma espécie de emancipação - como se a paternidade soberana de Deus fosse algo de que devessem se alforriar - os seres humanos têm verdadeira obsessão pela autonomia, isto é, pelo direito e pela capacidade de se governarem por si mesmos, moral e intelectualmente desligados do seu Criador.
Com a natureza pecaminosa que herdamos de Adão e Eva, também sofremos a influência de tal obsessão. Acreditamos na falácia de Satanás. Aquela mentira destilada pela antiga serpente, há milênios, é uma das principais energias que movem a sociedade e o homem moderno. Isto é, o desejo de conduzir-se a si mesmo, submetendo-se apenas aos ditames da própria consciência, a despeito de quaisquer regras, avisos ou ordens divinas, ainda é a mais grave moléstia do coração do homem.
Portanto, não é nada surpreendente que Deus tão freqüentemente se utilize do sofrimento, como instrumento de remoção do nosso orgulho e como limitador para o nosso enganoso senso de independência ou autonomia. Quando Deus nos coloca em um leito de hospital, por exemplo, sob os cuidados intensivos de estranhos, dos quais dependemos totalmente, inclusive, para nos mover, nos higienizar ou para o alívio da nossa dor, descobrimos que o nosso sentimento de onipotência é absolutamente proporcional à nossa real impotência.
Não! Não somos Deuses! E não há nada que exponha mais claramente esta verdade do que o sofrimento infligido a nós por forças que, implacavelmente, se sobrepõem à nossa. Não é sem razão que o apóstolo Paulo se deu conta da importância do sofrimento, como sinalizador de nossa total dependência de Deus e de sua graça, e como moderador do nosso orgulho espiritual. Após orar por três vezes, para que Deus o livrasse de um "espinho na carne" pelo qual era continuamente atormentado, Paulo obteve a seguinte resposta de Deus: "Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2Coríntios 12.9). A conclusão a que o próprio apóstolo chegou, após tal episódio, foi esta: "Para impedir que eu me exaltasse (...) foi me dado um espinho na carne" (v. 7).
Escrito por Léo Barbosa às 11h22
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